O que o meu eu de 64 anos gostaria de dizer ao meu eu de 25?
De tempos em tempos, a vida nos presenteia com perguntas que parecem simples, mas carregam camadas de profundidade que só se revelam aos poucos, como fotografias antigas que, à medida que envelhecem, ganham textura e significado. Recentemente, uma jovem estagiária da Elos, curiosa, inteligente e com aquele brilho de quem encara o futuro repleto de esperanças e possibilidades, me perguntou o que o meu eu de 64 anos diria ao meu eu de 25.
À primeira vista, parece fácil respondê-la. Mas trata-se apenas de um exercício imaginário, dado que viajar no tempo permanece no domínio da ficção científica. Dialogar com o próprio passado é sempre uma construção imaginária. E perigosa também. Quem fala aos 64 anos corre o risco de ser presunçoso, como se tivesse acumulado uma sabedoria universal aplicável a qualquer jovem. Cada geração vive em outro tempo, outras urgências e outros paradigmas. Poucas lições sobrevivem intactas a essas travessias.
Ainda assim, a pergunta me provocou. E, como quase todo adulto que já viveu tempo suficiente para colecionar erros, acertos e arrependimentos silenciosos, minha primeira resposta foi uma brincadeira: “Jovem Jurandir, lá por 2010 você vai ouvir falar de um tal de Bitcoin. Vai parecer algo estranho, improvável e sem sentido, mas acredite na ideia e invista tudo o que puder”.
Mas piadas não iluminam caminhos. O que as pessoas realmente procuram quando perguntam a alguém mais velho o que diriam ao próprio eu jovem não é futurologia. É direção. Buscam princípios que possam orientar decisões hoje, quando ainda há tempo de construir ou reconstruir a própria vida.
Mesmo correndo o risco de ser excessivamente confiante, e consciente de que nenhum conselho sobrevive intacto ao contato com o mundo, reuni algumas reflexões que, acredito, podem servir aos jovens de hoje tanto quanto serviram ou teriam servido a mim.
O peso e a leveza
Se pudesse falar ao jovem que fui, diria que ele não precisava levar a vida tão a sério. Eu carregava o mundo nas costas com a convicção de que tudo dependia de mim. Não reconhecia que a leveza também é uma forma de inteligência.
Mas esse conselho precisa de calibragem cuidadosa. Para alguns jovens, aqueles naturalmente inclinados ao Easy Rider, ele seria um convite à irresponsabilidade. Então talvez a frase correta fosse esta: leve a vida a sério, mas não demais. Leve a vida com leveza, mas não a ponto de perder o rumo.
A saúde como patrimônio silencioso
Tudo o que conquistamos, carreira, projetos, amores e ideias, repousa sobre a base da saúde. Ela é um patrimônio silencioso e, por isso, os jovens a tratam como inexaurível. Não é. Se pudesse voltar, me daria os parabéns, pois aprendi a cuidar da minha desde cedo. A saúde é nosso maior patrimônio, uma verdade simples, direta, quase banal, porém, fácil de ser esquecida.
O capital humano, riqueza invisível da juventude
Aos 25 anos, somos extraordinariamente ricos. Não em dinheiro, mas em capital humano. Energia, tempo, capacidade de aprender e possibilidade de recomeçar indefinidamente.
Esse capital, porém, não é eterno. Com o passar dos anos, ele diminui gradualmente. Ao longo da vida, precisamos converter parte desse capital humano em capital financeiro, para que um dia seja possível aliviar a carga de trabalho do próprio corpo e da própria mente, delegando parte ou mesmo toda essa função ao capital financeiro que construímos. Quem não poupa na juventude corre o risco de ficar pobre duas vezes, pobre em capital humano e pobre em capital financeiro.
E a melhor forma de realizar essa conversão é por meio de um bom plano de previdência, que funciona como a ponte segura entre a força da juventude e a tranquilidade da maturidade.
O tempo, o mais valioso dos ativos
O tempo é o elemento mais democrático da vida e, paradoxalmente, o mais mal administrado. Não falo apenas do tempo cronológico, mas do tempo interior, aquele que dedicamos a aprender, a cultivar relações, a cuidar da saúde, a explorar a curiosidade.
Aos 25, acreditamos que ele é infinito. Não é. O tempo exige escolhas. E toda escolha, cedo ou tarde, apresenta a fatura. Entender isso cedo é um privilégio raro.
Relações que sustentam e relações que destroem
A maturidade ensina que as pessoas que escolhemos para dividir a vida são decisivas para a nossa saúde emocional e até para a trajetória profissional. Relações demandam respeito, um respeito profundo, paciente, adulto.
Há também uma verdade dura que só o tempo revela. Amigos vêm e vão. Inimigos, porém, se acumulam. Por isso vale lutar com empenho para não criá-los. Eles consomem nossa paz e nosso tempo, ativos muito valiosos para desperdiçarmos com quem não gostamos.
Filhos e a educação pelo exemplo
Se você decidir ter filhos, saiba que eles exigirão o que há de mais escasso na vida: tempo. E, sobretudo, saiba que eles não aprendem pelo que dizemos, mas pelo que fazemos. Palavras instruem. Exemplos formam.
O verdadeiro desejo humano
Dinheiro e poder são frequentemente apontados como motores da ambição humana. Mas, no fundo, o que as pessoas realmente desejam é ser amadas e admiradas. A verdadeira conquista está em ser admirado pelo que você é, não pelo que possui. Essa é a forma de admiração que atravessa o tempo sem se desfazer.
O risco da mediocridade confortável
Na vida, há coisas que são meio e outras que são fim. Nos meios, como carreira, habilidades técnicas e rotinas, a virtude está no equilíbrio. Mas nos fins, amor, propósito, vínculos profundos, projetos de vida, a mediocridade é perigosa.
Um casamento péssimo ou um emprego tóxico às vezes despertam o impulso necessário para mudar. O problema é o que é mediano: o casamento morno, o emprego suportável, as amizades protocolares. A mediocridade confortável é uma armadilha. Mantemos tudo como está porque nada dói o suficiente para nos empurrar para fora. Poucos desperdícios são tão silenciosos quanto esse.
Patrimônio e vida conjunta
Case com separação de bens e viva o casamento com união de rendas. Essa combinação protege o patrimônio e fortalece a parceria.
A queda inevitável e a coragem indispensável
A vida, mais cedo ou mais tarde, vai lhe derrubar. Em alguns momentos, vai bater forte. E você cairá. Mas existe apenas uma coisa que não se pode perder: a coragem de levantar. Resiliência não é obstinação cega nem otimismo ingênuo. É uma decisão moral. Continuar caminhando e, sempre que possível, contribuir para que o mundo seja um pouco melhor do que o encontrou.
Se eu dissesse tudo isso ao meu eu de 25 anos, ele provavelmente não ouviria. Talvez sorrisse, agradecesse e seguiria vivendo do seu jeito, como deve ser. A juventude tem suas próprias teimosias, e ainda bem. É preciso viver para aprender.
Se ao menos uma destas reflexões servir para a brilhante estagiária que me fez a pergunta ou para algum jovem que ler este texto, ele já terá cumprido o seu papel. De todo modo, escrevê-lo já me foi extremamente útil, porque me obrigou a revisitar e compreender melhor a minha própria trajetória. Agora o que realmente gostaria de saber é o que o meu eu de 90 anos diria ao meu eu atual.

Jurandir Sell Macedo
Doutor em Finanças Comportamentais com pós-doutorado em Psicologia Cognitiva, sendo pioneiro nesta área no Brasil. Nosso consultor na área financeira e previdenciária.