Finanças e previdência

Bets vendem sonhos. A previdência constrói o futuro.

Data de Publicação: 01/07/26

Todo mundo sabe que não pode embarcar em um avião com um canivete. Agora imagine que uma lei passasse a permitir passageiros portarem metralhadoras automáticas, desde que elas viessem acompanhadas de um aviso: “Use com responsabilidade.” 

É exatamente essa sensação que tenho quando observo a proliferação das bets no Brasil.

A palavra bet vem do inglês e significa aposta. No plural, bets, passou a designar o mercado de apostas esportivas on-line. Por trás do nome moderno e do marketing sofisticado, está algo muito antigo: o jogo de azar, agora revestido de tecnologia, aplicativos e campanhas publicitárias altamente profissionais. 

Durante décadas, o Brasil manteve uma posição rígida em relação aos jogos de azar. O jogo do bicho permanece ilegal desde 1941, os cassinos foram fechados em 1946 e os bingos, após uma breve reabertura nos anos 1990, voltaram a ser proibidos no início dos anos 2000.

Tudo mudou com a regulamentação das apostas de quota fixa, o nome técnico das bets. Em poucos anos, o país passou de um dos mais restritivos para um dos maiores mercados de apostas do mundo. A mudança foi tão rápida que muitos brasileiros sequer perceberam que um jogo de azar, antes associado aos cassinos e bingos, passou a estar legalmente disponível na tela do celular, durante as transmissões esportivas e nas redes sociais. É por isso que comparo essa mudança à diferença entre permitir um canivete e liberar uma metralhadora. 

Uma indústria bilionária e seus impactos

Basta ligar a televisão para assistir a um jogo. Antes mesmo de a bola rolar, o espectador já está cercado por marcas de casas de apostas estampadas nos uniformes, nas placas ao redor do campo e nos intervalos comerciais. Nas redes sociais, influenciadores prometem ganhos rápidos e fáceis. A mensagem é sempre a mesma: aposte, ganhe, repita. Ao final, o aviso quase irônico: “Jogue com responsabilidade.” O que raramente aparece é o rastro de problemas deixado para quem perde o controle.

O mercado de apostas esportivas foi legalizado pela Lei nº 13.756, de dezembro de 2018. A criação dessa modalidade não ocupou o centro do debate nacional. Surgiu em uma medida provisória voltada principalmente à redistribuição das receitas das loterias e ao financiamento da segurança pública, do esporte e da cultura. Na prática, o país autorizou uma nova indústria bilionária sem discutir, com a profundidade necessária, os efeitos da combinação entre smartphones, redes sociais, influenciadores digitais e apostas disponíveis vinte e quatro horas por dia.

Quando as regras passaram a ser efetivamente implementadas, em 2024, o mercado já havia explodido. Hoje existem 187 casas de apostas autorizadas, e os brasileiros transferem entre R$ 18 bilhões e R$ 30 bilhões por mês para essas plataformas. Apenas em 2025, foram registrados 26,4 bilhões de acessos a sites de apostas, uma média superior a 130 acessos por segundo, 24 horas por dia e 365 dias por ano.

Essa expansão trouxe consequências impressionantes. Segundo a Confederação Nacional do Comércio (CNC), as bets contribuíram para levar cerca de 270 mil famílias à inadimplência severa. Um estudo publicado em dezembro de 2025 estimou que as apostas online geram um custo anual de R$ 38,8 bilhões ao país, considerando gastos com saúde, desemprego, afastamentos do trabalho e outros danos sociais, muito mais do que os R$ 9 bilhões de impostos arrecadados em 2025.

Entre a população de menor renda, apenas em agosto de 2024, cerca de 5 milhões de beneficiários do Bolsa Família transferiram R$ 3 bilhões via PIX para plataformas de apostas. O impacto chegou até ao supermercado: pesquisas indicam que aproximadamente 19% dos apostadores reduziram gastos com alimentação para continuar apostando, enquanto cerca de R$ 143 bilhões migraram do varejo para as plataformas entre 2023 e 2026. Isso que acontece nas classes mais baixas também ameaça, de forma diferente, quem tem renda mais elevada e aposta pensando que é estratégia.

A falsa ideia de que apostar é investir

Talvez o aspecto mais preocupante seja a mudança na forma como parte da população passou a enxergar as apostas. É cada vez mais comum ouvir alguém dizer que está “investindo” em bets. Essa escolha de palavras não é inocente. Ela transmite a falsa ideia de que existe uma estratégia racional capaz de produzir ganhos consistentes.

Isso definitivamente não existe.

Investir é aplicar recursos em ativos capazes de gerar riqueza ao longo do tempo. Empresas produzem bens e serviços e pagam dividendos. Títulos públicos remuneram o investidor com juros. Imóveis podem gerar aluguel. Um plano de previdência permite acumular patrimônio para objetivos de longo prazo, preservando recursos que pertencem ao participante. 

Nas apostas ocorre exatamente o contrário. O dinheiro não financia a produção de riqueza nem constrói patrimônio. Ele entra em um jogo cuja expectativa matemática favorece absurdamente a casa de apostas. Em outras palavras, quanto mais apostas são realizadas ao longo do tempo, maior tende a ser o lucro da “casa” e menor tende a ser o patrimônio do conjunto dos apostadores. 

É verdade que algumas pessoas ganham mais do que gastam. Esses casos recebem enorme divulgação justamente porque são exceções. E pior, muitas vezes, esses casos são falsos. Quase ninguém publica nas redes sociais as milhares ou milhões de apostas perdidas que vieram antes.

O futuro não depende só da sorte

Essa é a diferença essencial entre apostar e investir. A aposta depende da incerteza para existir. O investimento depende da disciplina. A aposta alimenta a emoção do ganho imediato. O investimento recompensa a paciência. A aposta aumenta a instabilidade da vida financeira. O investimento reduz as incertezas do futuro.

Se construir patrimônio é uma decisão de longo prazo, faz sentido buscar instrumentos criados exatamente para esse objetivo. É nesse contexto que a previdência complementar se diferencia das promessas de ganho imediato. 

Imagine se o dinheiro destinado semanalmente às apostas fosse aplicado, durante anos, em um plano como este. Pequenas contribuições mensais, associadas ao poder dos juros compostos, poderiam formar um patrimônio capaz de proporcionar segurança, liberdade e tranquilidade para realizar projetos de vida.

Aqui na Elos, cada contribuição no seu plano representa um passo na construção de um patrimônio que continuará pertencendo ao participante e à sua família. O prêmio não depende da sorte. Depende da disciplina.

Enquanto uma aposta termina em poucos minutos, a decisão de planejar o futuro pode gerar resultados por décadas. Conheça as soluções de previdência da Elos e descubra como a disciplina e os juros compostos podem trabalhar a favor dos seus objetivos. 

Jurandir Sell Macedo

Doutor em Finanças Comportamentais com pós-doutorado em Psicologia Cognitiva, sendo pioneiro nesta área no Brasil. Nosso consultor na área financeira e previdenciária.

jurandirsell.com.br

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