A herança é um dos temas mais controversos no âmbito das finanças pessoais. A simples reflexão sobre sua importância já pode despertar indignação em muitas pessoas. Tradicionalmente, correntes políticas mais à esquerda tendem a ter uma visão crítica em relação à herança, enquanto as correntes mais à direita a consideram um direito fundamental para manter a estabilidade social.
Neste artigo, não pretendo entrar na polêmica sobre o direito à herança ou sobre as regras e impostos aplicados pelo Estado. Em vez disso, gostaria de propor uma reflexão sobre a decisão individual de deixar herança para os descendentes.
A herança não surgiu como um ato de generosidade dos progenitores para seus descendentes. Ela se consolidou como um pacto tácito entre gerações: os filhos esperavam receber o patrimônio dos pais após sua morte, mas, em troca, assumiam a responsabilidade de cuidar deles na velhice. Era um sistema previdenciário intrafamiliar. Esse acordo funcionava bem em uma época em que a expectativa de vida era baixa e as famílias eram numerosas. Hoje, porém, esse pacto está desatualizado.
A relação entre a estrutura demográfica e a herança não é tão óbvia, mas é extremamente relevante. No passado, quando a expectativa de vida girava em torno dos 60 anos, os filhos tendiam a receber a herança ainda jovens, o que certamente tinha um forte impacto em suas finanças e contribuía para seu sucesso financeiro. Quando os pais envelheciam e necessitavam de cuidados, havia muitos filhos para dividir as responsabilidades. Além disso, as mulheres geralmente não trabalhavam fora de casa e podiam se dedicar aos cuidados dos idosos. Hoje, essa realidade mudou.
Atualmente, é comum que muitos pais, avós e sogros precisem ser cuidados por apenas um ou dois filhos, em vez de uma família numerosa. Assim, em um mundo onde a expectativa de vida aumenta e as estruturas familiares se transformam, ainda faz sentido priorizar a herança?
Se o pacto antigo não é mais conveniente, outro precisa ser colocado no lugar. Para muitas famílias, melhor do que tentar deixar uma herança para os filhos é garantir uma fonte de renda que permita uma velhice confortável, com a possibilidade de contratar cuidados profissionais na longevidade.
Para muitos, uma grande herança para os filhos, é chegar ao ocaso da vida com condições físicas, emocionais e financeiras que permitam uma vida autônoma, deixando os filhos livres para construírem suas carreiras, terem tempo para seus próprios filhos e, assim, possibilitando que eles construam seus próprios patrimônios.
Mas, como tantas coisas na vida, o desejo de deixar uma herança transcende o aspecto meramente racional. Alguns pais consideram a herança como um legado de amor e cuidado, uma forma de garantir que os filhos tenham uma vida mais confortável. Para outros, é um fardo que pode gerar conflitos familiares e até mesmo desincentivar a autonomia financeira dos herdeiros.
Assim, alguns pais com boa condição financeira têm adotado outras formas de apoiar os filhos em vez de acumular bens para deixar como herança. Por exemplo, ajudam a pagar a educação dos netos, custear planos de saúde familiares, contribuir para a entrada na casa própria ou oferecer suporte em momentos de dificuldade financeira. Essas ações geram um impacto mais imediato e significativo do que uma herança recebida décadas depois.
Também é cada vez maior o número de pais que consideram que a melhor herança não é o dinheiro ou os bens materiais, mas sim os valores e o conhecimento transmitidos ao longo da vida. Isso inclui ensinar os filhos a lidar com finanças, a valorizar o trabalho e a construir seu próprio caminho. Enquanto a herança material pode ser disputada, perdida ou mal administrada, a educação é um patrimônio intangível que ninguém pode tirar.
Investir em um plano de previdência privada, diversificar investimentos e contar com um seguro de saúde robusto são estratégias essenciais para garantir uma aposentadoria segura. Além disso, é importante cuidar da saúde física e emocional, pois isso reduzirá a dependência dos filhos no futuro.
Também é fundamental conversar abertamente com os filhos sobre expectativas e planejamento financeiro. Muitos conflitos familiares surgem da falta de diálogo sobre o tema. Deixar claro como os recursos serão distribuídos e quais são as prioridades pode evitar desentendimentos futuros.
Deixar ou não uma herança para os filhos é uma decisão pessoal que deve levar em conta as circunstâncias individuais e familiares. O foco deve ser garantir uma velhice digna e autônoma para o indivíduo e, se houver, para seu cônjuge, sem depender financeiramente dos filhos. A herança, se existir, deve ser vista como um complemento, não como uma obrigação.
No fim das contas, a maior herança que podemos deixar é o exemplo de uma vida bem vivida, pautada em valores sólidos e em relações familiares fortalecidas pelo diálogo e pelo respeito. Afinal, o verdadeiro legado não está no patrimônio financeiro que deixamos, mas nos princípios que cultivamos e transmitimos ao longo da vida.

Jurandir Sell Macedo
Doutor em Finanças Comportamentais com pós-doutorado em Psicologia Cognitiva, sendo pioneiro nesta área no Brasil. Nosso consultor na área financeira e previdenciária.