Em um passado recente, ter conta em banco era privilégio de poucos. No início do Plano Real, o acesso a serviços bancários ainda era baixo: segundo o Banco Central, era pouco mais de 10% da população adulta. Desde então, a inclusão financeira avançou rapidamente e, de acordo com dados divulgados pelo Banco Central em janeiro de 2025, 200.160.523 CPFs tinham pelo menos um relacionamento vigente com o Sistema Financeiro Nacional.
Parte relevante desse crescimento está ligada à digitalização, com a expansão dos bancos digitais e o uso massivo dos aplicativos dos bancos tradicionais. Isso aparece no comportamento do público: segundo a PNAD Contínua, 119,6 milhões de pessoas usaram a internet para acessar bancos ou outras instituições financeiras em 2024. Atualmente se estima que este número se aproxime de 140 milhões de pessoas acessando os bancos via internet.
Até a virada do milênio, ter conta em banco era caro e exigia que a pessoa fosse pessoalmente a uma agência. No mundo dos investimentos, a realidade também era muito diferente da atual: cada banco oferecia, em geral, os próprios produtos financeiros. Eu costumo dizer, em tom de brincadeira, que era como se cada banco plantasse seu milho, engordasse seu porco, fizesse a salsicha e vendesse o próprio cachorro-quente.
A partir da virada do século, com mudanças de mercado puxadas principalmente pela XP, o cenário se transformou. Hoje, bancos e, sobretudo, corretoras distribuem produtos de diferentes plataformas, inclusive produtos emitidos por outros bancos. Em 2002, foi lançado o Tesouro Direto, permitindo que qualquer pessoa comprasse títulos públicos do Tesouro Nacional por meio de uma plataforma em parceria com a B3. E, em 16 de novembro de 2020, o Pix foi lançado oficialmente. Com isso, o Brasil passou a contar com um dos sistemas financeiros mais avançados e tecnológicos do mundo.
Infelizmente, a outra ponta da equação, a educação financeira, não avançou no mesmo ritmo. Muita gente tem dificuldade para tomar decisões de investimento e, por isso, vira presa fácil de promessas fraudulentas. Ainda é comum ouvir que existe “o melhor investimento”. Na verdade, cada investimento é adequado a um perfil e a um objetivo específico. Para quem não é do mercado, é fácil confundir tudo e, pior, investir em algo que não combina com seus objetivos.
A boa notícia é que a maioria dos produtos oferecidos nos apps se organiza em poucas categorias. Entendendo o básico de cada uma, você passa a escolher com muito mais segurança. Antes de falar dos produtos, vale fixar três perguntas que sempre vêm antes do “onde investir”.
A primeira é risco. Em geral, existem dois riscos básicos. O risco de mercado é a possibilidade de o valor do investimento oscilar para cima ou para baixo (como acontece com ações e alguns títulos antes do vencimento). Já o risco de crédito é a chance de quem tomou o seu dinheiro não pagar na data combinada. Para reduzir o impacto do risco de crédito em produtos bancários, existe o Fundo Garantidor de Créditos (FGC), que reembolsa depositantes e investidores se um banco ou financeira quebrar, cobrindo produtos como depósitos à vista, poupança, CDB, LCI e LCA, até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ por instituição (ou conglomerado), e com um teto global de R$ 1 milhão por CPF/CNPJ em um período de 4 anos.
A segunda pergunta é rentabilidade. Retorno maior costuma vir junto de risco maior. Se alguém promete alto retorno com baixo risco, desconfie: isso costuma ser isca para golpe. Além disso, olhe sempre a rentabilidade com lupa, porque ela pode ser reduzida por custos e taxas (taxa de administração e, em alguns casos, taxa de performance, custódia e spreads) e por impostos (IR e, em alguns casos, IOF). O que importa é o retorno líquido, ou seja, o que sobra no bolso.
A terceira pergunta é liquidez. Quanto tempo você demora para ter o dinheiro de volta quando precisar dele? Não confunda liquidez com “prazo”: há produtos com vencimento longo, mas com mercado de venda; e há produtos com vencimento nem tão longo, mas com carência e resgate travado. Para objetivos de curto prazo e reserva de emergência, liquidez é assunto sério.
Feito isso, vamos às categorias mais comuns.
1) Conta remunerada e “caixinhas”
Muitos bancos oferecem rendimento para o dinheiro parado, seja na própria conta, seja em “caixinhas” e metas. A grande vantagem é a simplicidade e a liquidez elevada (em várias instituições, o resgate é rápido). Porém, a segurança e o rendimento dependem do “motor” por trás: pode ser um produto bancário coberto pelo FGC (como CDB) ou um fundo. Vale olhar qual é a taxa (por exemplo, percentual do CDI), se existe carência e qual é o horário de resgate.
2) CDB (Certificado de Depósito Bancário)
É um dos produtos mais comuns nos apps. Você “empresta” dinheiro ao banco e recebe juros. Muitos CDBs têm liquidez diária, isto é, o emissor se compromete a recomprar quando você precisar. Outros têm carência ou vencimento, e aí o dinheiro pode ficar preso por um período. Em geral, CDB tem cobertura do FGC, mas o investidor deve respeitar os limites e evitar concentrações excessivas no mesmo emissor.
3) LCI e LCA
São letras de crédito ligadas ao setor imobiliário (LCI) e ao agronegócio (LCA). O grande atrativo para pessoa física é que, em regra, são isentas de Imposto de Renda. Isso pode elevar bastante a rentabilidade líquida. Em contrapartida, é comum haver carência. O jeito correto de comparar é sempre olhar “líquido contra líquido”: uma LCI a 90% do CDI pode ser melhor do que um CDB a 100% do CDI, dependendo do prazo e do imposto.
4) Tesouro Direto (títulos públicos)
Nos apps, você encontra principalmente Tesouro Selic (muito usado para reserva e curto prazo), Tesouro Prefixado (taxa fixa no momento da compra) e Tesouro IPCA+ (proteção contra inflação no longo prazo). A grande vantagem é a transparência e a variedade de prazos. O ponto de atenção é entender a oscilação: prefixados e IPCA+ podem variar bastante antes do vencimento. Isso não é “defeito”; é a natureza do preço. Para curto prazo, o Tesouro Selic costuma oscilar muito menos.
5) Fundos de investimento (renda fixa, multimercado, ações)
Fundos são “condomínios”: vários investidores colocam dinheiro e um gestor aplica conforme uma estratégia. Existem fundos excelentes e fundos ruins. No Brasil, há uma enorme quantidade de fundos, o que exige critério. Para o leigo, a regra prática é: entender a estratégia (o que o fundo pode comprar), observar taxas, prazo de resgate e histórico com cautela (passado não garante futuro, mas revela disciplina). Fundo não tem FGC: o risco aqui é de mercado e de gestão.
6) Previdência privada (PGBL e VGBL)
Previdência é uma estrutura voltada ao longo prazo, com vantagens difíceis de replicar em outros produtos. Ajuda a criar disciplina de aportes e aproveitar juros compostos para aposentadoria. No PGBL, quem faz declaração completa pode deduzir contribuições até 12% da renda tributável, adiando imposto e aumentando o potencial de acumulação. No VGBL, a tributação recai principalmente sobre os rendimentos, sendo útil para declaração simplificada. Além disso, costuma facilitar o planejamento sucessório e permite portabilidade entre fundos e instituições.
7) Ações
Ao comprar uma ação, você vira sócio de uma empresa. Pode ganhar com dividendos e com a valorização do preço. Mas é investimento de risco de mercado elevado e exige estômago e horizonte longo. Para a maioria, ações fazem sentido como parte de uma estratégia diversificada, e não como aposta.
8) COE (Certificado de Operações Estruturadas)
COE é um produto estruturado que mistura componentes e regras específicas de retorno. Pode parecer atraente, mas costuma ter complexidade alta, liquidez baixa e assimetria que o investidor leigo nem sempre percebe. Se você não entende exatamente como ganha e como perde, a decisão mais inteligente é evitar.
9) Renda fixa privada “avançada”: debêntures, CRI/CRA
Alguns apps oferecem títulos de empresas (debêntures) ou do mercado imobiliário e do agronegócio (CRI/CRA). Podem pagar taxas maiores, mas trazem risco de crédito (a empresa pode ter problemas), liquidez limitada e, muitas vezes, ausência de FGC. Aqui, o investidor precisa ser ainda mais criterioso.
Conclusão
O sistema financeiro ficou mais moderno, rápido e acessível. Abrir conta, investir e transferir dinheiro virou algo que cabe no bolso. Mas a facilidade do clique não elimina a necessidade do julgamento. A melhor proteção do investidor não é um “produto perfeito”; é um método simples: definir objetivo e prazo, checar risco (de mercado e de crédito), comparar rentabilidade líquida (já descontados custos e impostos) e garantir liquidez compatível com a sua vida. Quando você entende as categorias e faz perguntas básicas antes de investir, você sai do improviso e entra no controle. E, no fim, é isso que investimento deveria ser: um meio para alcançar seus objetivos.

Jurandir Sell Macedo
Doutor em Finanças Comportamentais com pós-doutorado em Psicologia Cognitiva, sendo pioneiro nesta área no Brasil. Nosso consultor na área financeira e previdenciária.