A Fundação Elos me convidou para contar minha história nesse campo. Porém, narrar a própria trajetória é um exercício inevitavelmente paradoxal. Montaigne advertia que “cada homem traz em si a forma inteira da condição humana”, mas essa condição chega sempre filtrada por uma lente particular. Escrever sobre si é navegar entre dois abismos: o silêncio, que priva o outro de um caminho potencialmente útil, e a palavra, que, ao iluminar, também distorce. Escolho aqui a palavra, consciente de seus limites, apostando que reconhecer o próprio viés já é, por si só, uma forma de honestidade intelectual.
O que me levou ao campo das finanças nasceu muito antes de mim. Nasceu em uma época em que dinheiro e investimentos eram vistos como assuntos masculinos. Foi sob essa lógica que meus pais construíram sua relação. Minha mãe se casou aos 16 anos e passou da tutela financeira do pai para a do marido, sem jamais participar das decisões sobre as finanças da família. Meu pai era um empresário em franca ascensão quando um acidente automobilístico interrompeu sua vida de forma súbita. Minha mãe ficou sozinha para criar três filhos. Eu era o mais velho e tinha apenas 10 anos.
Uma lição aprendida cedo demais
Meu pai nunca pensou que sua vida pudesse acabar de uma hora para outra, como acontece com tanta gente. Pagava a previdência pública pelo mínimo possível, não tinha seguro de vida e nunca se preocupou em preparar minha mãe para o desafio de gerir as finanças da família.
Do dia para a noite, ela precisou enfrentar desafios para os quais não estava preparada. Tinha 27 anos, era bonita e vivia numa cidade do interior onde o machismo era intenso; muitos homens enxergavam sua vulnerabilidade como oportunidade. Como escudo e proteção, ela passou a me levar aos bancos e às reuniões de negócio que precisou enfrentar para liquidar os empreendimentos do meu pai. Ver minha mãe atravessar reuniões duras com coragem e, muitas vezes, desabar em choro ao sair delas plantou em mim uma certeza precoce: eu precisava entender aquele mundo para nunca mais me sentir indefeso diante dele.
Minha mãe lutou com perseverança, quitou as dívidas, mas grande parte do patrimônio se perdeu. A partir daquela tragédia, construiu um mantra que nos guiou por anos: até poderia faltar pão, mas jamais educação. Em 1975, mudamo-nos para Florianópolis, onde ela voltou a estudar, formou-se e construiu uma bela carreira. Hoje aproveita uma aposentadoria confortável.
Foi assim que comecei a me aproximar das finanças. Primeiro, ajudando minha mãe com as contas da família; depois, aconselhando parentes sobre investimentos em um país de inflação galopante. Meu primeiro emprego foi como office boy. Com o primeiro salário, assinei a Gazeta Mercantil, que consumia uma fatia considerável da minha renda. Era um custo elevado, mas certamente contribuiu muito para minha formação.
Em 1983, passei no processo seletivo para estagiário da Eletrosul, um sonho para os estudantes da UFSC. Lá aprendi a usar planilhas eletrônicas e automatizei a contabilização de empréstimos em moeda estrangeira. Aquilo, hoje banal, projetou-me a analista financeiro. Um colega me convidou, então, para assumir uma turma de recuperação em Matemática Financeira na Univali; e ali nasceu uma vocação para o magistério que eu jamais imaginara ter. Pouco depois, pedi demissão para realizar um sonho: ter uma indústria própria. Em 1990, vendi a empresa e voltei ao ensino, a paixão que descobri quase por acidente naquela turma de Matemática Financeira.
Quando ensinar virou missão
Em 1991, ingressei no mestrado em Engenharia de Produção e, em 1992, fui aprovado em concurso para professor da UFSC, onde iniciei lecionando Economia Monetária e Mercado de Capitais. Com a inflação descontrolada, vieram os planos Cruzado 1 e 2, o desastroso Plano Collor e, finalmente, o bem-sucedido Plano Real. Em todos eles, eu era fonte recorrente na TV, no rádio e em jornais, explicando ao público o que acontecia na economia. A exposição aumentou a percepção de valor dos meus conselhos; e assim comecei a cobrar por eles, sem saber que aquilo era uma atividade profissional reconhecida.
Foi nesse período que conheci Louis Frankenberg, o pioneiro das finanças pessoais no Brasil. Ele me disse que o que eu fazia tinha nome: Planejador Financeiro. E me convidou para integrar o grupo que traria ao Brasil uma certificação internacional para profissionais da área. Fui um dos fundadores do então Instituto Brasileiro de Certificação de Profissionais Financeiros, o IBCPF, hoje Planejar, que concede a certificação CFP no país, um marco que ajudou a transformar o planejamento financeiro pessoal numa profissão reconhecida no Brasil.
Foram anos de ritmo intenso: coordenei a primeira especialização acadêmica em gestão previdenciária do Brasil, fui professor em diversos cursos de especialização, assumi a presidência de uma fundação da UFSC e ministrei cursos para gerentes de bancos por todo o país. A exaustão que se acumulou nesse período me levou, na virada do ano 2000, a uma decisão radical: ingressar no doutorado para estudar a obra de dois psicólogos então pouco conhecidos, Daniel Kahneman e Amos Tversky.
Em 2001, fui com a família morar um ano em Montreal, onde realizei um doutorado-sanduíche e conheci a disciplina de Personal Finance, na Concordia University. Ali nasceu um sonho: implantar aquela disciplina na UFSC. Ao retornar ao Brasil, Kahneman foi laureado com o Nobel de Economia, o que ajudou a legitimar um campo que até então era pouco conhecido. Publiquei a primeira tese sobre Finanças Comportamentais do Brasil, numa área que passou de obscura a mainstream.
O propósito por trás da trajetória
Em retrospecto, percebo que muito do que me movia nesse campo era a memória daquela jovem viúva de 27 anos que precisou, sem nenhum preparo, enfrentar sozinha o mundo das finanças. Cada vez que ensinava alguém a investir, a planejar a aposentadoria ou simplesmente a entender um extrato bancário, havia um pouco dela naquele gesto.
Ao fim do doutorado, implantei a disciplina de Finanças Pessoais como optativa para todos os cursos da UFSC; por mais de duas décadas para turmas sempre lotadas. Migrei, então, inteiramente para essa área: escrevi A Árvore do Dinheiro, um dos primeiros livros sobre o tema no Brasil, e percorri o país por 13 anos na Expomoney, o maior evento de educação financeira da época. Fui articulista do Banco do Brasil, fiz um pós-doutorado na Université Libre de Bruxelles, por oito anos, integrei o programa Uso Consciente do Dinheiro, do Banco Itaú, um dos trabalhos de que mais me orgulho. Ao longo desse caminho, escrevi cinco livros, publiquei, até agora, 120 artigos na revista RI, lancei o podcast A Visão do Jurandir, que hoje soma 160 episódios, e passei a dividir meus conhecimentos nas redes sociais.
Aposentei em 2025 da UFSC como professor titular, após quase quatro décadas dedicadas ao ensino, e hoje trabalho com consultorias em educação previdenciária na Fundação Elos e na Funpresp-Jud. Tenho 64 anos, mas nem penso em parar. O que me motivou a começar é o que me motiva ainda hoje: mostrar às pessoas que é preciso cuidar das finanças, preparar-se para a longevidade, estar pronto para os imprevistos, e que as mulheres precisam entender de finanças tanto quanto os homens.
Certa vez, um aluno me disse que tinha inveja do meu currículo. Respondi que era eu quem tinha inveja do dele. Surpreso, ele disse que o seu currículo tinha apenas uma linha. “Exatamente por isso”, eu disse. “Eu tenho muito passado. Você tem muito futuro.”

Jurandir Sell Macedo
Doutor em Finanças Comportamentais com pós-doutorado em Psicologia Cognitiva, sendo pioneiro nesta área no Brasil. Nosso consultor na área financeira e previdenciária.