Quando pensamos em moda, é comum associá-la apenas ao vestuário, às roupas ou à estética. No entanto, o conceito é mais amplo. A moda faz parte de um fenômeno maior, chamado de Sistema de Moda, que envolve comportamentos sociais, cultura, economia e a forma como as pessoas se relacionam com o consumo.
Com qual frequência falamos “isso é moda” ao apontar uma peça de roupa ou um calçado que parece estar em todos os lugares? Muitas vezes reconhecemos algo como “moda” justamente porque vemos aquele item se repetir. Ainda assim, esquecemos que esse produto é apenas a materialização de uma tendência, que, por sua vez, surge de uma macrotendência, ou seja, de movimentos mais amplos ligados às mudanças sociais, culturais e econômicas de cada época.
Um exemplo disso aconteceu na década de 1990. Naquele período, o minimalismo, que já havia aparecido nas artes e no design nas décadas de 1950 e 1960, chegou ao seu auge. Após o estilo extravagante dos anos 1980, o minimalismo passou a se destacar principalmente no vestuário e design de interiores. A ideia era valorizar peças simples, discretas e funcionais, como uma forma de viver apenas com o essencial.
À primeira vista, parecia apenas uma mudança estética. Mas havia também um contexto por trás disso. O minimalismo refletia um momento de incerteza econômica e o receio de uma possível recessão. Assim, a ausência de ostentação também dialogava com um cenário de cautela financeira e mudanças no comportamento das pessoas.
Tal como o minimalismo, que não se restringe à arte ou ao design, sendo um estilo de vida, as tendências de consumo e estilo de vida costumam ser também estéticas. Hoje, redes sociais como Instagram, Pinterest e TikTok aceleram ainda mais esse processo. Em poucos dias, algo pode se tornar tendência e influenciar milhares de pessoas. Nesse ambiente, há uma busca constante por mostrar felicidade, equilíbrio e sucesso em uma vida aparentemente simples, exalando saúde e bem-estar.
Em 2025, a modelo Hailey Bieber estampou ensaios fotográficos cercada por produtos de hortifrúti. O gesto de exibir frutas e vegetais em produções visuais, antes apenas um recurso estético inusitado dentro da moda e da publicidade, acabou antecipando e dialogando com uma movimentação mais ampla: a cultura do bem-estar (wellness).
Curiosamente, o mundo da moda muitas vezes reflete também o cenário econômico. Nas passarelas, as tendências não surgem apenas por questões estéticas. Mudanças econômicas e sociais costumam influenciar diretamente aquilo que se vê nas coleções.
Um exemplo recente é o chamado “quiet luxury”. Nesse momento, pessoas muito ricas e influentes passaram a aparecer com roupas discretas, sem logotipos chamativos ou acessórios extravagantes. A ideia é transmitir elegância e sofisticação sem ostentação explícita. Esse comportamento pode indicar períodos de maior cautela econômica ou instabilidade global, como momentos marcados por guerras, crises ambientais ou incertezas financeiras.
Ao mesmo tempo, vivemos em uma sociedade marcada por transformações rápidas, fenômeno que o sociólogo Zygmunt Bauman descreveu como Modernidade Líquida. Nesse cenário, valores, estilos de vida e referências culturais tornam-se instáveis e estão em constante mudança. Como consequência, as formas pelas quais as pessoas constroem sua identidade passam a se vincular cada vez mais com práticas de consumo passageiras.
Entre mudanças de estilo pessoal, redecorar a casa ou renovar o guarda-roupa, muitas vezes os valores e a autenticidade acabam se fundindo com a necessidade de pertencimento. O desejo de se encaixar em determinados grupos ou estilos pode influenciar nossas escolhas de consumo, às vezes sem que percebamos.
Com tantos produtos e tendências surgindo todos os dias, fica um questionamento importante: até que ponto nossos desejos e “necessidades” são realmente nossos? E até que ponto eles são resultado das influências sociais, culturais e digitais que nos cercam?

Lais Heck
Estagiária de Comunicação e Marketing na ELOS. Graduanda em Design pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).