Em 1968, meus avós maternos deixaram Lages, no interior de Santa Catarina, e se mudaram para Balneário Camboriú. Naquela época, a cidade estava longe de se parecer com a hoje célebre BC. Meu avô, descendente de italianos, era um homem alegre, apaixonado por conversa e mestre em encantar a família com histórias longas, sempre temperadas por um toque de realismo fantástico.
Vô Bino e vó Cecy viveram uma história de amor digna de um filme da Disney. Tiveram cinco filhas e muitos netos e netas. Levaram uma vida simples, porém confortável, e eram fiéis à tradição de reunir a família aos domingos. Como bom italiano, Vô Bino adorava roupas modernas e coloridas, e era justamente aí que surgiam os conflitos. Ao receber um presente ousado, minha avó reagia indignada: “Como é que uma mulher da minha idade vai usar essas roupas?” Ela tinha 50 anos e, para ela, essa idade era um limite. Para ele, era liberdade.
Essa cena doméstica revela um equívoco que atravessa gerações: a crença de que as primeiras vezes pertencem apenas à juventude e que, após certo ponto, resta repetir o que já se conhece. Minha avó acreditava que experimentar algo novo aos 50 beirava a transgressão social. Meu avô intuía algo mais profundo — algo que apenas recentemente as ciências humanas começaram a explicitar.
Hannah Arendt lembrava que a capacidade de iniciar algo novo é a essência da ação humana. Chamava isso de natalidade: a possibilidade permanente de recomeçar. Não é atributo da juventude, mas da condição humana.
Nos anos 1960, porém, a expectativa de vida das mulheres no Brasil mal chegava aos 60 anos. Não surpreende que minha avó acreditasse ter pouco tempo pela frente. A vida, no entanto, a conduziu até os 93. Ou seja, teve quase o mesmo tempo de vida adulta depois dos 50 quanto antes deles.
A longevidade transformou radicalmente o percurso humano. Aos 50, não estamos no epílogo, mas no fim do prólogo. Temos mais consciência, mais autonomia e, paradoxalmente, mais tempo. É essa combinação — tempo e discernimento — que torna a maturidade o terreno mais fértil para as primeiras vezes. Depois dos 50, 60, 70 ou 80, não reencontramos limites; reencontramos possibilidades.
Talvez meu avô, com suas camisas coloridas e seu espírito expansivo, estivesse dizendo exatamente isso à minha avó: que a vida não exige autorização para recomeçar e que nenhum número no calendário define a hora de experimentar o novo. Toda primeira vez, depois dos 50, é menos ruptura e mais retorno; não ao passado, mas ao que sempre esteve em nós, aguardando maturar.
Nunca é tarde. E nunca foi. Enquanto houver curiosidade, espanto e o desejo profundamente humano de ampliar o próprio mundo, haverá sempre espaço para uma primeira vez — aos 50 ou aos 90.
Mas falar de primeiras vezes apenas no plano filosófico seria incompleto. A filosofia inspira; a prática transforma. E o cotidiano costuma ser o território mais fértil para os recomeços. Fazer algo pela primeira vez não exige heroísmo, apenas disposição. Muitas vezes, o que falta não é tempo, mas permissão. A permissão interna para experimentar sem culpa.
E como se começa? Começa-se começando.
Aprender a surfar: a água não pede documento, e a prancha não julga ninguém. Surfar depois dos 50 não é atletismo; é conversa com a impermanência.
Pular de asa delta: não para desafiar a gravidade, mas para lembrar que o corpo ainda sabe voar quando a mente permite.
Viajar sozinho: não é fuga, mas reencontro. Descobrir que o silêncio tem sotaques diferentes em cada cidade.
Aprender um instrumento: ainda que seja apenas esboçar alguns acordes no violão. Nietzsche dizia que a vida sem música seria um erro; a maturidade afina essa percepção.
Aprender uma nova língua: não pela fluência, mas pela humildade de dizer “não sei” e a alegria de, de repente, começar a entender.
Usar roupas ousadas e coloridas: como fazia o Vô Bino. Uma camisa laranja não muda o mundo, mas muda o humor.
Trocar de casamento: às vezes não de cônjuge, mas de pacto. Renovar acordos, expectativas e rotinas também é uma primeira vez.
Sair sozinha à noite: autonomia não se aposenta. Uma taça de vinho tomada em silêncio pode ser uma iniciação à própria presença.
E há ainda as vontades espontâneas, os desejos antigos ou recém-nascidos, que não se encaixam em nenhuma categoria. Fazer o que der na telha é uma forma de sabedoria.
Não existe lista universal de primeiras vezes. Existe apenas a sua. E ela não precisa fazer sentido para ninguém além de você.
Por isso, deixo um convite simples: escreva cinco coisas que gostaria de fazer pela primeira vez. Cinco curiosidades. Cinco coragens. Cinco começos.
Depois dos 50, a vida não encolhe: ela se amplia para quem decide ocupá-la.

Jurandir Sell Macedo
Doutor em Finanças Comportamentais com pós-doutorado em Psicologia Cognitiva, sendo pioneiro nesta área no Brasil. Nosso consultor na área financeira e previdenciária.