Finanças e previdência

Mulheres gastam mais ou pagam mais caro? 

Data de Publicação: 30/03/26

A ideia de que mulheres gastam mais é recorrente. Aparece em conversas informais, no senso comum e, muitas vezes, como uma “explicação” rápida para diferenças no consumo. 

Mas, quando olhamos mais de perto, a pergunta muda: mulheres realmente gastam mais, ou simplesmente são levadas a pagarem mais? 

A vida adulta feminina traz uma série de custos que raramente são nomeados, mas que estão presentes no cotidiano. Alguns são evidentes, outros mais sutis. E, juntos, ajudam a explicar por que essa percepção persiste. 

Um dos pontos mais visíveis é o fenômeno conhecido como Pink Tax, “taxa rosa” em tradução. Apesar do nome, não se trata de um imposto formal, e sim de uma prática de mercado: produtos e serviços direcionados ao público feminino costumam ter preços mais elevados do que equivalentes masculinos, mesmo quando apresentam a mesma função ou composição. 

Um exemplo simples está nas prateleiras. Lâminas de barbear voltadas para mulheres podem custar, em média, 12,23% a mais do que as versões masculinas, segundo estudo da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM). A pesquisa Taxa Rosa e a Construção do Gênero Feminino no Consumo buscou identificar se as mulheres realmente pagam mais caro nos produtos. 

Em produtos específicos, essa diferença se torna ainda mais visível: um tênis branco de couro, cano alto custa 24% mais caro no modelo feminino (dados de 2017). 

Uma calça jeans, modelo básico, da mesma marca apresentou preço 23% maior na peça feminina. Outro exemplo que vemos nos mercados e farmácias: um shampoo anticaspa, da mesma marca, na “versão masculina”, com embalagem azul apresentou um preço 9,8% menor. 

Em serviços, a diferença também aparece. Em salões unissex no país, uma pesquisa de 2022, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), mostrou que as mulheres pagaram, em média, R$41,28 a mais do que os homens, o que equivale a uma cobrança de 64% a mais para o corte de cabelo feminino. 

Esse padrão não é exclusivo do Brasil. Já é estudado há anos em países como Estados Unidos, Reino Unido, França e Alemanha. Por aqui, ainda é um campo recente de pesquisa, o que torna o debate ainda mais necessário. 

Não é “só” a Pink Tax 

Mas o custo de ser mulher não se resume à diferença de preço entre produtos semelhantes. Há também gastos que são, na prática, inevitáveis: itens de saúde e higiene íntima, como anticoncepcionais e outros produtos específicos, além de cuidados recorrentes que fazem parte da rotina. Soma-se a isso um fator menos tangível, porém igualmente relevante: a expectativa social. 

Para as mulheres, o cuidado estético muitas vezes deixa de ser apenas uma escolha individual e passa a funcionar como critério de aceitação social e, em alguns casos, profissional. Manutenção de cabelo, unhas, maquiagem, roupas consideradas “adequadas” para determinados ambientes – tudo isso compõe um padrão que influencia diretamente o consumo. 

Além disso, há custos associados à própria experiência de circular no mundo. Questões de segurança impactam decisões cotidianas: optar pelo transporte por aplicativo à noite, escolher trajetos mais longos ou investir em alternativas consideradas mais seguras. São escolhas que, embora muitas vezes invisíveis nas estatísticas, pesam no orçamento. 

Ao mesmo tempo, esse cenário se cruza com outro dado estrutural: as mulheres ainda recebem, em média, menos do que os homens. O Relatório de Transparência Salarial e Critérios Remuneratórios de 2023, mostrou que as mulheres recebem apenas 79,3% do salário de homens no mesmo cargo (20,7% a menos). Ou seja, em muitos casos, elas precisam lidar com mais custos e menos renda. 

E há ainda outro fator adicional: as mulheres vivem mais – em média, 7,6 anos, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatistica (IBGE). Isso significa que, ao longo da vida, tendem a demandar mais recursos para garantir segurança financeira no longo prazo, especialmente na aposentadoria. 

Diante desses e de outros fatores, a ideia de que mulheres “gastam mais” se revela simplificadora. O que existe, na prática, é um contexto que condiciona padrões de consumo e amplia a pressão sobre o orçamento feminino. 

Isso não significa que a solução seja individual, ou que dependa apenas de escolhas de consumo mais conscientes. A discussão passa também por questões estruturais, como desigualdade de renda, padrões sociais e práticas de mercado. 

Brenda Gasparetto

Estagiária de Comunicação e Marketing na ELOS. Graduanda em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

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