Finanças e previdência

Mulheres e a aposentadoria

Data de Publicação: 13/03/25

As mulheres precisam de mais dinheiro do que os homens! Sempre que faço essa afirmação em palestras ou eventos públicos, percebo que muitas pessoas reagem dizendo que as mulheres são mais gastadoras do que os homens.

No entanto, não há comprovação estatística de que as mulheres gastem “mais” do que os homens de forma geral. Alguns estudos apontam que, no que se refere a gastos supérfluos, as mulheres tendem a fazer várias pequenas compras (autogratificações), enquanto os homens preferem realizar gastos com autogratificações mais esporádicos, porém de valor significativamente maior.

Não é por gastar mais que as mulheres precisam de mais dinheiro, mas sim em função de sua maior longevidade em relação aos homens. Em 2022, a expectativa de vida ao nascer para os homens era de 72 anos, enquanto para as mulheres era de 79 anos, uma diferença de 7 anos. No grupo de pessoas que chegam aos 65 anos, as mulheres ainda têm uma expectativa de vida de 3 anos a mais que os homens. Assim, no grupo de pessoas com 80 anos, as mulheres já representam 60% dessa faixa etária.

Dados alarmantes sobre o despreparo para a aposentadoria

    Entretanto, infelizmente, em média, as mulheres estão muito menos preparadas para a aposentadoria do que os homens. Um relatório da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) de 2020 destacou que as mulheres têm menos probabilidade de contribuir para planos de previdência privada e, quando o fazem, contribuem com valores menores. Segundo a pesquisa, em média, as mulheres recebem pensões 26% menores do que os homens.

    O relatório Aegon Retirement Readiness Survey também mostrou que as mulheres estão menos preparadas para a aposentadoria do que os homens. Apenas 29% das mulheres se sentiam confiantes em relação à sua aposentadoria, em comparação com 39% dos homens. Além disso, as mulheres também relataram ter menos conhecimento sobre investimentos e planejamento financeiro.

    Outro estudo do NIRS (National Institute on Retirement Security) mostrou que as mulheres nos EUA têm, em média, 30% menos poupança para a aposentadoria do que os homens. Além disso, as mulheres têm maior probabilidade de viver na pobreza durante a aposentadoria.

    A história se repete por aqui

    No Brasil, um estudo de 2019 da FGV (Fundação Getúlio Vargas) mostrou que as mulheres brasileiras são mais dependentes do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) do que os homens, que têm maior acesso a planos de previdência privada. Em outro estudo da Brasil Prev, de 2021, mostrou-se que apenas 38% das mulheres brasileiras contribuem para planos de previdência privada, em comparação com 62% dos homens.

    Segundo levantamento realizado por Jorge Garcia Filho, atuário da Elos, as reservas matemáticas dos participantes e assistidos do sexo masculino correspondem a pouco mais de 85% do patrimônio total administrado pela entidade. Em contrapartida, as mulheres representam menos de 15% desse montante. Ao analisar a individualização dessas reservas, observa-se que os valores acumulados pelos homens são, em média, pouco mais de 97% superiores aos das mulheres. Além disso, quando as mulheres estão incluídas nesses cálculos, frequentemente aparecem como beneficiárias de pensão por morte, um benefício que, por determinação regulamentar, é inferior ao valor original que gerou a pensão. Essa disparidade evidencia uma desigualdade significativa na distribuição de recursos entre gêneros no sistema analisado.

    Sem dúvida, esses dados refletem a disparidade salarial entre homens e mulheres, além de que elas tem maior probabilidade de enfrentar interrupções na carreira devido a diversos fatores, como a maternidade, os cuidados com familiares idosos ou com problemas de saúde. Ainda é mais comum que as mulheres assumam maiores responsabilidades na economia do cuidado. Esses são problemas estruturais que não são simples de resolver.

    Mulheres no mercado de investimentos: uma barreira a ser superada

    De forma constante, as mulheres estão lutando para buscar a igualdade salarial e de oportunidades no mercado de trabalho. Porém, ainda é lento o avanço das mulheres no mundo dos investimentos. No Tesouro Direto, uma plataforma de investimentos simples que conta com 31,5 milhões de investidores e que tem seus dados públicos, apenas 27,1% dos investidores são mulheres.

    Na maior parte das plataformas de investimentos, as mulheres ainda são minoria. Em uma pesquisa privada em um grande banco, observou-se que, mesmo mulheres que ganhavam salários muito maiores do que seus maridos, era comum que muitas delegassem a eles as decisões de investimentos.

    Autonomia financeira: um caminho para a segurança e igualdade

    Diante dos dados apresentados, fica evidente que as mulheres não podem se permitir ficar à margem das decisões financeiras e dos investimentos. A maior longevidade feminina e a probabilidade de, em algum momento da vida, precisarem administrar sozinhas seus recursos financeiros tornam essencial que as mulheres se capacitem e participem ativamente do planejamento e da gestão dos investimentos da família. Delegar essas decisões exclusivamente aos homens não é uma boa alternativa, pois pode deixá-las despreparadas para assumir o controle quando necessário.

    Empoderar-se financeiramente não se trata apenas de ganhar mais dinheiro, mas de garantir segurança, autonomia e a tranquilidade de saber que você estará preparada para lidar com os desafios do futuro, independente de circunstâncias externas. Além disso, ao se envolverem com o mundo dos investimentos, as mulheres não apenas garantem sua segurança financeira, mas também contribuem para romper estereótipos e promover a igualdade de gênero no mercado financeiro.

    Portanto, mulheres, não hesitem em buscar conhecimento, questionar, propor e participar ativamente das decisões financeiras. O futuro de vocês depende disso. Assumir o controle hoje é garantir uma aposentadoria mais tranquila e independente amanhã. Afinal, cuidar do seu dinheiro é cuidar da sua vida.

    Jurandir Sell Macedo

    Doutor em Finanças Comportamentais com pós-doutorado em Psicologia Cognitiva, sendo pioneiro nesta área no Brasil. Nosso consultor na área financeira e previdenciária.

    jurandirsell.com.br