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Aposentar não é parar: a vida depois do trabalho

Data de Publicação: 19/01/26

Aposentados falam sobre sentido, troca e pertencimento em uma vida que segue além do emprego formal

“A gente está preocupado contigo. O que você vai fazer depois daqui?”, a frase foi ouvida por Marialba dos Santos Coelho, hoje com 58 anos, nos últimos dias de trabalho na empresa onde construiu boa parte de sua trajetória profissional. Contadora, discreta, de rotina reservada, ela percebeu que muitos colegas não conheciam a dimensão da sua vida para além do trabalho formal. Não sabiam, por exemplo, que o que lhe faltava não era ocupação, mas tempo. Tempo para ampliar tudo aquilo que já fazia.

No Brasil, a aposentadoria ainda é frequentemente associada à ideia de encerramento. Segundo dados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), dos quase 41 milhões de benefícios pagos atualmente, cerca de 25,1 milhões são aposentadorias. O número ajuda a dimensionar o tamanho da população que já vive essa fase e, ao mesmo tempo, evidencia o desafio de repensar o significado social do pós-trabalho.

Marialba se aposentou em julho de 2023, aos 56 anos, depois de ter começado a trabalhar aos 14. A rotina mudou, e muito. Não há mais horários tão rígidos nem tantas tarefas fixas previamente definidas. Os compromissos e as pessoas com quem convive também são outros. “Hoje eu estou mais ocupada do que antes, por incrível que pareça”, conta. Entende que a aposentadoria abriu uma espécie de campo aberto: “É uma vastidão de possibilidades para nós aposentados”.

Marialba gosta de viajar e estar com as amigas; para ela, novas experiências fazem parte dessa fase da vida – Foto: Acervo pessoal

Essa transição nem sempre é compreendida por quem está ao redor, especialmente pelos estereótipos. “Parece que, quando a gente for se aposentar, vai só ficar em casa. A mulher fazendo faxina e o homem de pijama com os netos. E não é assim”, afirma. 

Ela rejeita a ideia de um “corte” definitivo. O último dia de trabalho não significa, necessariamente, desligamento da vida ativa. “A gente cai na armadilha de achar que o trabalho é a coisa mais importante”, reflete. “Claro que ele tem importância, ocupa pelo menos oito horas do dia. Mas a nossa vida não é só aquilo.” 

O que permitiu uma adaptação mais saudável foi aprender a substituir o ritmo imposto pelo trabalho formal por um ritmo próprio. “Eu reequilibrei os tempos. Consegui estar mais presente para mim mesma e para a minha família.” Com o passar dos meses, ela percebeu que o trabalho não desaparece, apenas muda de forma – remunerado, ou não. “Você retribui um pouco da tua experiência para agregar um grupo ou um indivíduo, fazer coisas que te realizam.”

A reorganização do tempo e do sentido também atravessa a experiência de Roseli da Silva, hoje com 59 anos. Assim como Marialba, ouviu comentários que colocavam em dúvida o que faria depois da aposentadoria. “Me falavam: ‘ah, tu vai aposentar e não vai ter o que fazer’. É claro que eu tenho.” Atuando no voluntariado “desde sempre”, passou a se dedicar ainda mais após deixar o trabalho formal. “Eu penso muito no que quero deixar de legado.”

Primeira entre onze irmãos a se formar, ela se reconhece como referência para as sobrinhas. Fala com humor sobre a chegada dos 60: “Estou no aguardo da crise”, brinca. Mas não demonstra qualquer intenção de desacelerar por falta de desejo. “Acho que nunca vou perder essa vontade de querer fazer tudo.” Gosta de conhecer novos lugares, mas, sobretudo, de conhecer pessoas.

Comunicativa, Roseli defende que “é preciso ocupar todos os espaços que se abrem” – Foto: Acervo pessoal

Essa vontade de circular, descobrir e experimentar não é individual. Uma pesquisa do Booking.com, de 2020, aponta que 77% dos brasileiros com mais de 60 anos afirmam que viajar é uma das principais formas de aproveitar a aposentadoria. Mais do que deslocamento, a viagem aparece como possibilidade de novas experiências e de ampliação das redes de convivência.

“Meu sonho sempre foi poder sair, viajar e ficar dois, três, quatro meses – não só os 15 ou 20 dias de férias”, conta Rita de Cássia, aos 68 anos. Ela se aposentou no final de 2018, mas encerrou o vínculo profissional definitivamente em abril de 2019, como Conselheira de Administração. Quando isso aconteceu, realizou uma viagem em família para a Itália e permaneceu pelo tempo que sempre imaginou.

Rita durante uma viagem por Portugal – Foto: Acervo pessoal

Ao longo da carreira, Rita seguiu o ritmo tradicional do trabalho formal: entrar às 7h30 ou 8h e sair apenas no início da noite. “Eu sonhava com os dias em que não precisaria mais acordar às seis da manhã”, lembra. Depois da aposentadoria, passou a substituir essas obrigações por escolhas próprias. Sempre interessada em estudar, continuou fazendo cursos, mas agora orientada pelo desejo. “Hoje a capacitação é interna”, diz. Fez cursos ligados a viagens, para montar os próprios roteiros, estudou leilão de imóveis e concluiu um MBA voltado a habilidades humanas. A evolução sempre esteve no seu radar: aos 40 anos, decidiu cursar pedagogia. “Eu queria melhorar meu lado humano”, conta.

A ideia de envelhecimento ativo, defendida pela Organização Mundial da Saúde (OMS), parte justamente desse princípio: manter autonomia, participação social e bem-estar físico e emocional ao longo dos anos. Estudos também apontam que a prática regular de atividades físicas e sociais contribui para a manutenção da mobilidade, da força e do equilíbrio, além de reduzir o risco de isolamento, ansiedade e depressão.

Ézio Martins, 72 anos, vive essa lógica no cotidiano. Corredor desde os 22, nunca abandonou o esporte. Participou de maratonas, correu com colegas de trabalho e segue ativo após a aposentadoria, que aconteceu em 2011. Além disso, é conhecido pelas pinturas feitas à mão – faixas para festas comunitárias e até das corridas em que participa. 

Para ele, os benefícios da corrida vão além da saúde física. “Quando a gente está na empresa, tem os colegas para conversar, planejar, conviver. Depois que me aposentei, as prioridades mudaram e muitas pessoas se afastaram”, conta. A alternativa foi seguir em movimento e fazer novos amigos pelo caminho.

Ézio encontrou na corrida uma forma de se reinventar e já participou de diversas maratonas ao longo da vida – Foto: Acervo pessoal

Ézio acredita que esta fase não precisa significar perda de utilidade social. “Eu posso contribuir com muito do que eu sei. Às vezes sobre como iniciar na corrida, outras sobre pintura. Até para gerar confiança nos mais jovens”. Ele acredita que o olhar faz a diferença. “Reclamar não vai resolver. A aposentadoria não é o fim. É só mais uma jornada, um trajeto diferente.”

Mantém o bom humor que tinha entre os colegas e gosta de caminhar pela beira-mar de Florianópolis, onde, vez ou outra, encontra Wilton Braz Pereira, que, igualmente, rejeita a ideia de prazo de validade. “Eu não conheço isso. Qualquer um pode ter mais dez minutos ou uma vida inteira pela frente.” Também aposentado desde 2011, segue ativo como Conselheiro Fiscal da ELOS, faz trabalho voluntário e atua como Administrador Econômico e Financeiro da Paróquia de de Santo Antônio de Campinas. “É o que me dá mais trabalho, mas também uma função que me dá muito prazer.”

Ao mesmo tempo, aprendeu a impor limites. “Existem coisas às quais você não precisa mais se submeter.” Hoje, atuando coomo síndico, percebeu que o estresse não compensava. “Vou cumprir meu prazo e pronto. Esse papel não é pra mim.” Defende que adaptar o ritmo também significa escolher os desafios que fazem sentido, sem arranhar a própria história.

Hoje, Wilton afirma que não faria nada diferente no início da carreira profissional – Foto: ELOS

Wilton compartilha outra experiência, desta vez com Roseli: nenhum dos dois tirou 30 dias consecutivos de férias ao longo da carreira. A dedicação ao trabalho, comum a muitas trajetórias, ajuda a explicar por que a transição pode ser difícil para alguns aposentados. Roseli observa que, para muitos, a adaptação vem acompanhada de algumas frustrações. “É uma dor de incompetência, uma dor de inutilidade. A pessoa trabalhou 40 anos, foi gerente, fez tudo. E, de repente, não consegue falar com uma assistente virtual. Aí se pergunta: ‘quem sou eu agora?’”

Ela defende que empresas e instituições precisam aprender a lidar melhor com esse público. “É preciso priorizar os aposentados, entender as necessidades deles.” O voluntariado, para Roseli, aparece como uma resposta concreta ao isolamento que atinge muitos idosos e que pode agravar quadros de depressão e adoecimento mental. No grupo Pacotinhos de Amor, projeto assistencial que confecciona enxovais de bebês para famílias em vulnerabilidade social, do qual faz parte, a diversidade de contribuições é o que sustenta a experiência. “Nem todo mundo que participa sabe costurar, tricotar ou fazer crochê. Tem gente que organiza, conversa, articula contatos. A gente monta uma rede de apoio entre nós mesmos, e cada um contribui da própria maneira.”

Marialba, que também integra o grupo, complementa: o isolamento pode levar à espera passiva da finitude. “A pessoa se fecha, perde o interesse em ler, em ver um filme diferente, em manter a curiosidade. Você precisa continuar querendo ser uma pessoa interessante – porque todos somos.” Considera a interação entre gerações como parte desse processo. “A felicidade é um reflexo. A juventude me anima, me alimenta. É troca. Eu agrego e sou agregada.”

Esse debate ganha ainda mais relevância diante das transformações demográficas. Dados da Organização das Nações Unidas (ONU) mostram que, em 2019, havia 705 milhões de pessoas com mais de 65 anos no mundo, frente a 680 milhões de crianças de até quatro anos. O Brasil ainda não tem mais idosos do que crianças, mas caminha nessa direção. Hoje, são cerca de 80 brasileiros com mais de 60 anos para cada 100 pessoas de até 14.

O cenário projeta um futuro em que a população economicamente ativa será proporcionalmente menor em relação aos inativos – o que reforça a importância do planejamento de longo prazo. “Quando as pessoas são jovens não pensam que vão envelhecer. Mas vão, é uma condição da vida”, diz Rita. Para ela, foi positivo a empresa inicialmente ter tornado obrigatória a contribuição para a previdência complementar. “A previdência social é um a mais. Mas, se eu não tivesse a previdência privada que construí ao longo da minha carreira, a minha vida seria outra. É ela que me permite realizar meus sonhos e ter uma vida confortável, e também para a minha família.”

Wilton concorda. Compreende que a previdência complementar é o que garante a continuidade do padrão de vida. “A previdência social não dá conta de tudo. Só o plano de saúde já não seria coberto.” Ele defende metas realistas e planejamento constante. “Quem não se prepara, o dinheiro acaba muito rápido. E a gente não sabe até quando vai viver. Pode ser pouco tempo, mas também pode ser muito. Temos muitos casos de centenários, inclusive na Fundação.”

Roseli resume a lógica com simplicidade: “Quando você é jovem, está construindo um patrimônio e uma vida. Quando se aposentar, vai usufruir desse patrimônio. A previdência é um investimento que você faz em você mesmo.” 

Eles entendem que essa fase também significa fazer escolhas. Em 2019, Rita ouviu que não conseguiria parar, assim como Marialba. “Ah, você não vai se aposentar, porque você não vai conseguir fazer outras coisas”, diziam para a analista. A resposta veio com a serenidade de quem cumpriu um ciclo. “Eu trabalhei mais de 40 anos da minha vida. Já fiz tudo o que eu devia ter feito aqui na empresa. Por que eu não posso parar? Eu devo trabalhar até morrer? Não é assim que funciona.” Ao se afastar do emprego formal, ela não abriu mão de si mesma. Pelo contrário: passou a se dedicar aos hobbies, aos interesses que sempre existiram, mas que agora encontram tempo, energia e sentido.

Marialba, Ézio, Roseli e Wilton se reúnem em um bate-papo para refletir sobre aposentadoria – Foto: Acervo pessoal

Entre Wilton, Marialba, Rose e Ézio, a percepção é parecida: o fim do vínculo formal não apaga histórias, saberes nem desejos. A aposentadoria não surge como ponto final, mas como vírgula. Uma oportunidade que permite reorganizar a vida, redefinir prioridades e, sobretudo, continuar contribuindo, ainda que de outras formas. Há quem encontre realização no voluntariado, quem siga compartilhando experiências com gerações mais jovens, quem descubra prazer em atividades simples, como caminhar à beira-mar ou retomar talentos antigos. 

Num mundo em que o trabalho costuma ocupar o centro da identidade, essas trajetórias ajudam a desmontar a ideia de que deixar um cargo é deixar de ser alguém. O pós-emprego formal não é ausência de propósito, tampouco uma “sentença de invisibilidade”. É, muitas vezes, o início de um tempo em que a vida deixa de ser regida por obrigações e passa a ser guiada por escolhas – possíveis, inclusive, graças ao planejamento construído ao longo da carreira.

Em uma sociedade que vive mais, envelhecer não significa desaparecer do mundo produtivo, social ou afetivo. E talvez a pergunta que se impõe não seja quando parar, mas como seguir. Seguir curioso, ativo, conectado, aberto às trocas. Seguir sendo mais do que um cargo, uma função ou um crachá. Porque, como mostram essas histórias, quase nunca é tarde para continuar sendo – e vivendo. Ainda dá!

Brenda Gasparetto

Estagiária de Comunicação e Marketing na ELOS. Graduanda em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).