Saúde e Bem Estar

A relação entre saúde mental e saúde financeira

Data de Publicação: 29/09/25

Em 8 de setembro, gravamos mais um episódio do podcast Elos Entre Nós. Além de mim, participaram Vivian Awad como host e, como convidado especial, o médico psiquiatra Dr. Daniel Felipe de Negreiros. Discutimos a intensa relação entre saúde mental e saúde financeira. O artigo a seguir reúne reflexões sobre os principais pontos do episódio. Aproveito para convidar você a assistir à conversa completa no YouTube da Fundação Elos, onde há nuances que não couberam neste texto.

Preocupações com dinheiro e sofrimento psíquico costumam ser tratados em gavetas separadas, mas, na vida real, eles dividem a mesma mesa. Se o bolso aperta, o sono encurta, o humor oscila e a paciência com quem amamos diminui. Se a mente está sobrecarregada, decidimos pior, compramos por impulso, adiamos escolhas importantes e sabotamos o planejamento do futuro. Falar de saúde financeira é, portanto, falar de saúde mental. E não por acaso: o conceito contemporâneo de saúde abarca bem-estar físico, psíquico e social. Nessa moldura, “saúde financeira” não é só conta paga; é a capacidade de sustentar projetos, viver a vida comunitária e exercer aptidões com autonomia.

Quando o consumo esconde carências emocionais

Dinheiro é meio. Quando vira fim, desloca tudo do lugar. Costumamos imaginar o problema financeiro como falta de renda, mas desequilíbrio também nasce do excesso mal administrado. Há quem se perca por perdulário, há quem adoeça por avareza, há quem use o dinheiro como instrumento de poder. Em todos os casos, o eixo sai do centro e a vida passa a orbitar valores que pouco têm a ver com o que realmente importa. Em consultorias e atendimentos, é comum o sintoma financeiro esconder dores anteriores. No episódio, recordo o caso de uma senhora com boa renda e dívidas altas. O extrato mostrava compras de roupas que mal eram usadas. Quando surgia a pergunta “por quê?”, vinha a resposta: as vendedoras eram as únicas pessoas que lhe dispensavam atenção. O cartão financiava, na verdade, carências afetivas. O preço não cabia no orçamento nem resolvia a solidão.

O impacto da depressão e da ansiedade nas finanças

O Dr. Daniel lembra que o caminho é de mão dupla e também opera do lado clínico. Depressão pinta o mundo em tonalidades de ruína e paralisa a ação. Ansiedade exagera ameaças, antecipa catástrofes e esfarela o sono. Em ambos os casos, a tomada de decisão fica comprometida. Decisões patrimoniais relevantes pedem adiamento quando a mente está em tempestade. Casar-se ou separar, mudar de emprego, sacar a aposentadoria acumulada por décadas, abrir um negócio do zero por ressentimento com a antiga empregadora; quando decididos no calor da emoção, esses movimentos costumam custar caro. O Dr. Daniel nos trouxe um conselho é simples: diferencie desejo de execução. Diga a si mesmo “posso até fazer, mas não agora”. Ganhar tempo é dar espaço para que a razão se recomponha.

O cansaço de decidir, a terceirização das escolhas e propósito

Parte do sofrimento financeiro moderno nasce do cansaço de decidir. Vivemos expostos a excesso de opções, opiniões e ofertas. Diante de um mar de produtos, plataformas e promessas, cresce a tentação de terceirizar escolhas só para ter a quem culpar se der errado. Isso alivia no curto prazo, mas nos infantiliza no longo. Responsabilidade não é garantia de acerto; é compromisso com processos prudentes: definir objetivos, conhecer o próprio perfil de risco, organizar o orçamento e criar rituais que blindem o futuro do humor do dia.

As redes sociais agravaram a comparação social. A Vivian provoca com o fato de que a vitrine dos outros é infinita e selecionada para brilhar. Quem rola a tela no sofá de um sábado tem a impressão de que todos viajam, amam e prosperam o tempo inteiro. Nessa régua enviesada, consumir vira forma de pertencer e de ser visto. Gasta-se para aliviar angústia e conquistar aprovação, mas a aprovação é volátil e a angústia volta com juros. Recomendei recolocar o dinheiro em seu devido lugar. Penso numa pergunta útil: quanto tempo do seu dia você passa pensando em água? Se falta água, você só pensa nisso. Se transborda, também. No equilíbrio, a água some do radar. Com dinheiro deveria ser parecido: nem escassez que paralisa, nem abundância que ocupa o centro da cena.

Envelhecimento, propósito e autonomia financeira

O envelhecimento traz outro capítulo dessa conversa. Há quem chegue aos 60 com autonomia financeira e, ainda assim, adoeça por ter perdido o sentido do que faz. Nesse espírito, o Dr. Daniel trouxe o caso de um empresário que construiu grande patrimônio e, a pedido da família, decidiu parar de trabalhar. Em poucos meses, mergulhou em depressão e chegou ao consultório já medicado. Ao perceber que a raiz do sofrimento não era médica, mas a perda de propósito, sugeriu que ele voltasse a trabalhar de forma mais equilibrada, com menos horas e menos pressão. O brilho imediato no olhar do paciente confirmou que o que lhe fazia falta não era remédio, mas atividade significativa. O episódio ilustra como, em uma sociedade que confunde sofrimento com doença, é essencial diferenciar quando o cuidado deve ser clínico e quando deve resgatar sentido e ocupação.

Há quem acumule patrimônio e não consiga usufruir, prisioneiro do controle. Há quem precise seguir trabalhando não por propósito, mas por necessidade, resultado de décadas sem planejamento. Em todas as situações, a chave é integrar números e narrativas: planejar o fluxo de renda e, junto, cultivar pertencimento, propósito e prazer possíveis em cada etapa.

Caminhos práticos para equilibrar saúde mental e financeira

Como avançar, na prática, rumo a um equilíbrio mais saudável entre finanças e mente? O Dr. Daniel aconselha: comece pelo “por quê”. Antes de comprar, investir, sacar ou emprestar, pergunte: por que quero fazer isso agora? O que estou tentando resolver de verdade? Em seguida, separe emoção de execução: estabeleça uma regra de resfriamento para decisões irreversíveis. Durma, converse, anote prós e contras, simule cenários. E não terceirize integralmente suas escolhas: busque parceiros confiáveis, sem conflitos de interesse, que ajudem você a pensar melhor, não a decidir por você. Diferentemente de boa parte do mercado financeiro, na Elos não trabalhamos por comissões; nosso foco é promover o equilíbrio financeiro de longo prazo dos participantes.

Vigie sinais de alerta: sofrimento persistente, insônia, irritabilidade, conflitos frequentes e a sensação de que a vida financeira virou um campo de batalha. Esses indicadores pedem pausa, revisão do plano e, se necessário, ajuda profissional.

Por fim, substitua status por sentido. Respeito que depende do tamanho do carro evapora rápido. Respeito que nasce de coerência e contribuição atravessa décadas. Dinheiro pode comprar conforto, segurança e tempo, três ativos nobres quando usados com intenção. Pode também comprar ruído, comparação e ressentimento quando usado para encobrir vazios.

O convite é simples e desafiador: trate suas finanças como um espelho fiel, não como máscara. O reflexo honesto pode doer no começo, mas é ele que abre espaço para escolhas mais serenas, relações mais verdadeiras e uma vida que, no fim do dia, caiba no seu bolso.

Jurandir Sell Macedo

Doutor em Finanças Comportamentais com pós-doutorado em Psicologia Cognitiva, sendo pioneiro nesta área no Brasil. Nosso consultor na área financeira e previdenciária.

jurandirsell.com.br