Finanças e previdência

O Último Azul e o etarismo que se esconde no cuidado 

Data de Publicação: 22/04/26

Uma distopia é a representação de uma sociedade imaginária indesejável ou assustadora, geralmente situada em um futuro próximo. O que torna as distopias especialmente inquietantes é que elas não nascem do nada. Ao contrário, transformam em ficção medos, tendências e deformações que já se insinuam, ainda que de forma embrionária, na vida cotidiana. 

É justamente esse o caminho escolhido por O Último Azul, filme brasileiro de Gabriel Mascaro. Em vez de mostrar um mundo destruído por guerras, máquinas ou catástrofes, o filme imagina um país em que o Estado decide resolver o “problema” da velhice por meio de uma solução administrativa.

A premissa pode soar absurda à primeira vista, mas a força do filme está em revelar que seu núcleo não é estranho à realidade. O tema central é bastante concreto: o etarismo, isto é, o preconceito contra as pessoas em razão da idade. 

O cuidado como linguagem da exclusão

No filme, Tereza, personagem de 77 anos vivida por Denise Weinberg, recebe a ordem de ser levada para uma colônia habitacional destinada a idosos. Mantida pelo Estado, essa estrutura serviria para retirar os mais velhos de circulação e liberar os mais jovens para a produção.

Para os que não aceitam esse deslocamento, entra em cena o “cata-velho”, figura que escancara a face coercitiva do sistema. A grande sacada do filme está aí: mostrar que, sob a aparência de organização, eficiência e cuidado, pode se esconder uma política de exclusão. 

Uma lógica antiga: quando envelhecer vira perda de valor

A ideia de que os idosos podem representar um peso para a sociedade, no entanto, está longe de ser nova. No início do século XX, William Osler, um dos médicos mais influentes de seu tempo e considerado por muitos o pai da medicina moderna, chegou a afirmar a “inutilidade dos homens acima dos sessenta anos de idade”. Mais tarde, alegou-se que a frase tinha algo de caricatura ou provocação erudita. Ainda assim, ela revela com nitidez uma visão de mundo em que envelhecer significava, para muitos, perder valor social. 

Também é importante lembrar que a aposentadoria não surgiu apenas como um instrumento de proteção. Na sociedade industrial, marcada pelas linhas de montagem do taylorismo e do fordismo, a velocidade, a repetição e a adaptação ao ritmo da máquina eram elementos centrais. Nesse ambiente, trabalhadores mais velhos passaram a ser vistos como menos adequados à lógica produtiva dominante. A aposentadoria, nesse contexto, também serviu para empurrar pessoas para fora do sistema produtivo.

Quase um século depois, O Último Azul retoma essa tensão sob nova forma. O cuidado com a velhice revela sua face mais dura quando deixa de ser proteção e passa a funcionar como linguagem elegante do descarte.

Tereza tem um sonho: voar. Mas, ao tentar realizá-lo, descobre que o Estado já a colocou sob tutela da filha. Sem autonomia sobre os próprios recursos, impedida de comprar uma passagem e sequer de decidir o que comer, totalmente infantilizada, ela se rebela e foge. 

Denise e Rodrigo Santoro fazem parte da obra que discute a exclusão social

O filme mostra que o etarismo nem sempre aparece como hostilidade aberta, agressão direta ou abandono. Frequentemente, surge travestido de cuidado. A violência não nasce, necessariamente, de uma maldade explícita. Tanto a filha quanto o Estado acreditam estar agindo para proteger Tereza. E é isso que torna tudo mais desconfortável: a percepção de que proteger pode significar controlar, anular e reduzir o outro à condição de objeto de tutela. O idoso passa, então, a ser tratado como incapaz de fazer suas próprias escolhas e de preservar sua autonomia.

O etarismo dentro de casa

Esse é um ponto que ultrapassa a ficção. Uma das formas mais comuns de etarismo é tratar a velhice como se ela anulasse o futuro. Valoriza-se no idoso a memória, a experiência e a sabedoria, mas ainda há dificuldade em admitir que ele possa continuar tendo desejos, sexualidade, projetos, vontade de começar algo novo e pleno direito de escolher por si mesmo. 

Esse problema aparece com frequência nas famílias. Filhos e parentes, movidos por afeto e preocupação sinceros, passam a controlar o dinheiro, a rotina, os deslocamentos e até os pequenos desejos dos pais idosos. O envelhecimento pode trazer fragilidades reais, e ignorá-las seria irresponsável. Mas uma coisa é ajudar. Outra, bem diferente, é substituir a vontade do outro sem necessidade real. Cuidado não é controle. 

A autonomia financeira merece atenção especial nesse debate. Administrar o próprio dinheiro, ainda que com apoio, não é apenas uma questão prática. É também uma forma de preservar dignidade, liberdade e senso de identidade. Quando uma pessoa idosa perde o direito de decidir sobre seus recursos e sua rotina, o que lhe é retirado não é apenas autonomia operacional. É parte de sua condição de sujeito. 

A ideia de obsolência

Esse processo de infantilização também se manifesta no mercado de trabalho, quando a idade passa a ser tratada como sinônimo de obsolescência. Muitos profissionais são afastados não por perda de capacidade, mas por uma visão ainda ligada à lógica industrial, que associa envelhecimento à baixa adaptabilidade. E, cada vez menos compatível com a sociedade do conhecimento. 

Hoje, em muitas atividades, experiência, discernimento, capacidade de julgamento e habilidade para lidar com pessoas são ativos valiosos. Em vez de representar perda automática de valor, a idade pode significar repertório, maturidade e visão mais ampla. Excluir alguém apenas porque envelheceu é desperdício de talento e de capital humano. 

Cuidar sem diminuir

No fundo, O Último Azul sugere algo essencial: o contrário do etarismo não é apenas proteger os mais velhos, mas reconhecê-los como pessoas inteiras. Pessoas com direito à escolha, ao risco, ao prazer, à reinvenção e ao futuro. Em uma sociedade que envelhece rapidamente, esse é um debate que diz respeito a todos nós. O verdadeiro desafio está em aprender a cuidar sem diminuir, apoiar sem substituir e valorizar sem infantilizar. Quando isso não acontece, seja na família, seja no trabalho, seja pelo estado, o que se pratica não é proteção. É descarte. 

E o descarte não precisa ser tão explícito quanto o “cata-velho”. Ele acontece de forma silenciosa, quando se retiram dos mais velhos a autonomia, a voz e o direito de escolha em nome do cuidado. Por ser mais sutil, não é menos violento.

Jurandir Sell Macedo

Doutor em Finanças Comportamentais com pós-doutorado em Psicologia Cognitiva, sendo pioneiro nesta área no Brasil. Nosso consultor na área financeira e previdenciária.

jurandirsell.com.br