O crédito é frequentemente criticado, visto como sinônimo de endividamento excessivo e dificuldades financeiras. Porém, já imaginou como seria complicado viver em uma economia sem acesso a crédito e, portanto, sem uma forma eficiente de investir nossa poupança? Um sistema de crédito bem estruturado não apenas facilita o dia a dia das pessoas, mas é essencial para o crescimento e desenvolvimento econômico de um país. Ele permite que recursos financeiros sejam distribuídos de forma eficaz entre quem possui capital disponível e aqueles que precisam investir, produzir ou consumir.
No livro “Sapiens – Uma Breve História da Humanidade”, Yuval Harari oferece uma visão histórica sobre o surgimento do crédito. Segundo o autor, o crédito surgiu quando os seres humanos passaram a acreditar no futuro – especificamente, na ideia de que o amanhã poderia ser mais próspero que o presente. Essa confiança permitiu que as pessoas emprestassem dinheiro hoje com a expectativa de que haveria mais riqueza no futuro para pagá-lo de volta. Para Harari, o crédito é uma das grandes ficções coletivas que sustentam a civilização moderna, funcionando eficazmente apenas quando há confiança compartilhada de que as promessas feitas serão cumpridas amanhã.
O crédito como ferramenta de realização
O crédito funciona como uma ponte entre o presente e o futuro, permitindo que indivíduos e empresas tenham acesso hoje a recursos necessários para construir um amanhã mais próspero. É através do crédito que muitos conseguem realizar sonhos importantes como a casa própria, concluir uma formação profissional, expandir um negócio ou enfrentar emergências. Sem esse mecanismo, pessoas teriam que economizar por décadas antes de comprar um imóvel ou veículo, realizar uma cirurgia urgente ou mesmo pagar por educação de qualidade. Empresas, por sua vez, teriam dificuldades em expandir operações, adquirir novos equipamentos ou mesmo sobreviver a períodos de crise financeira.
Aqui na Elos, por exemplo, pessoas jovens que ainda estão trabalhando têm a possibilidade de guardar parte dos seus rendimentos financeiros, que serão alocados para demandas de governos, indivíduos e empresas. Estes, por sua vez, pagam juros ou dividendos que poderão ser utilizados pelos participantes no futuro, quando decidirem parar de trabalhar. Afinal de contas, como diz a sabedoria popular: ou você ou seu dinheiro terão que trabalhar enquanto você viver.
O risco do mau uso: uma faca de dois gumes
Contudo, a expressão “faca de dois gumes” usada no título deste artigo é apropriada para o crédito, pois ele pode trazer benefícios extraordinários, mas também perigos significativos quando mal utilizado. Essa metáfora indica claramente que o crédito pode tanto ajudar quanto prejudicar, dependendo da maneira como é empregado.
Dados recentes mostram que muitos brasileiros têm enfrentado dificuldades justamente por causa do uso inadequado do crédito. Segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), divulgada pela Confederação Nacional do Comércio, o percentual de famílias endividadas subiu de 76,7% em dezembro de 2024 para 77,6% em abril de 2025. Ainda mais preocupante é que 29,1% das famílias já enfrentam atrasos nos pagamentos, enquanto 12,4% acreditam não terem condições de quitar suas dívidas atrasadas. Estes números deixam evidente que o crédito, embora essencial, tem sido frequentemente usado de maneira irresponsável ou em condições desfavoráveis.
Devedor ou investidor: de que lado você está?
É importante lembrar que o dinheiro emprestado não é fornecido pelos bancos diretamente, mas sim proveniente das economias de outras pessoas. Bancos e instituições financeiras atuam apenas como intermediários entre aqueles que têm recursos disponíveis para investir e aqueles que precisam deles. Dessa maneira, os juros nada mais são do que o “aluguel” pago pelo dinheiro emprestado, e no Brasil, esses juros costumam ser extremamente altos, especialmente em operações como cheque especial ou cartão de crédito rotativo.
Em determinadas circunstâncias, o crédito é altamente recomendado e pode ser um excelente instrumento de desenvolvimento pessoal e econômico. Por outro lado, é preciso reconhecer claramente as situações em que o crédito não é recomendável. Usar empréstimos para manter um estilo de vida acima da capacidade financeira, financiando gastos supérfluos e impulsivos, é um dos erros mais comuns e perigosos. Esse comportamento geralmente leva à inadimplência, gerando juros elevados que se acumulam rapidamente e dificultam cada vez mais a quitação das dívidas.
Também é prejudicial contrair crédito sem um planejamento financeiro claro, ou utilizá-lo regularmente para cobrir despesas cotidianas, como contas básicas e alimentação. Se alguém precisa recorrer constantemente a empréstimos para despesas rotineiras, é sinal evidente de que ajustes financeiros são necessários urgentemente, seja reduzindo gastos ou buscando aumentar a renda.
Outro erro comum é contrair empréstimos para investir em operações especulativas de alto risco. Além do risco evidente de perder o capital investido, essa prática pode levar rapidamente à insolvência e ao colapso financeiro. É exatamente isso que vem acontecendo com muitos brasileiros que tomam crédito para alimentar a ilusão dos ganhos fáceis em jogos on-line. Empréstimos com condições desfavoráveis, taxas abusivas ou cláusulas pouco transparentes devem ser sempre evitados, pois tendem a resultar em situações difíceis e prolongadas de endividamento.
Os juros no Brasil estão entre os mais elevados do mundo. Isso é extremamente prejudicial para a economia e, em especial, para quem se endivida — inclusive o próprio governo, que é o maior tomador de crédito do país. Por outro lado — ou por outro gume, para mantermos a metáfora do título —, esses juros são altamente vantajosos para quem consegue poupar e investir. Portanto, é essencial escolher de que lado do jogo econômico se deseja estar: o lado de quem paga ou de quem recebe juros. Quanto mais altos os juros, maior a vantagem de quem investe sobre quem se endivida. Em tempos assim, a escolha é clara: seja investidor, não devedor.

Jurandir Sell Macedo
Doutor em Finanças Comportamentais com pós-doutorado em Psicologia Cognitiva, sendo pioneiro nesta área no Brasil. Nosso consultor na área financeira e previdenciária.