Saúde e Bem Estar

A tendência intergeracional que ultrapassa o feed

Data de Publicação: 21/11/25

Pessoas no TikTok e no Reels têm multiplicado vídeos com colegas mais velhos, dublando um remix que mistura Nicki Minaj e um hit de 1993. “Eu e o avô de alguém 8h por dia” ou “eu e a mãe de alguém numa terça-feira qualquer”, virou legenda para duplas “improváveis” e, ao mesmo tempo, sintomáticas. A trend intergeracional não é apenas “engraçadinha”, ela também revela algo que está acontecendo fora da tela.

Pesquisas internacionais apontam que, pela primeira vez, cinco gerações coexistem no mercado de trabalho, dos boomers à geração Alpha. E, quando essa convivência funciona, ela produz algo inesperado: vínculos que não cabem nos estereótipos de idade.

Levantamentos da consultoria KPMG, nos Estados Unidos, mostram que a solidão cresce justamente entre os mais jovens, e que colegas mais velhos muitas vezes atuam como uma espécie de “amortecedor emocional”. Além disso, uma pesquisa da AARP (American Association of Retired Persons) expõe que quatro em cada dez adultos têm um amigo 15 anos mais velho ou mais novo, na maioria das vezes encontrado através do trabalho.

A convivência entre gerações se torna, assim, uma das tendências sociais mais fortes da atualidade. Não como modinha, mas como resposta a um país que envelhece rápido (e demora a admitir isso), enquanto a juventude enfrenta pressão, instabilidade e a lógica do desempenho permanente. O debate deixa de ser um aceno “cool” à diversidade geracional e passa a tocar a estrutura. Como queremos trabalhar e conviver daqui em diante?

A contradição brasileira

A estética das duplas intergeracionais viraliza. Mas, fora do feed, segue sendo exceção. Dados da Ernst & Young e agência Maturi, de 2022, revela que apenas 6% a 10% dos funcionários nas empresas brasileiras têm mais de 50 anos. Ao mesmo tempo, 78% das corporações admitem que o etarismo é um problema interno.

Não bastasse o etarismo explícito das organizações, ainda há o autoetarismo, quando o próprio profissional acredita que “já não serve” ou que certas funções não são “para sua idade”. Soma-se a isso uma cultura empresarial que associa agilidade à juventude e trata a experiência como sinônimo de resistência a mudanças.

Tudo isso se choca com a realidade demográfica. Projeções do IBGE indicam que, até 2040, seis em cada dez trabalhadores terão mais de 45 anos. Hoje, 17 milhões de famílias brasileiras dependem financeiramente de alguém com mais de 60. E, segundo a Serasa, seis em cada dez aposentados precisam continuar trabalhando por necessidade.

Mesmo assim, iniciativas que apostam na convivência intergeracional começam a aparecer com resultados concretos. O Assaí Atacadista criou um programa voltado a profissionais 50+ e viu o número de colaboradores dessa faixa etária crescer mais de 90% em poucos anos. A fintech Neon fez o mesmo, visando um time de atendimento diverso para clientes com um perfil também diverso. As empresas que adotam essa iniciativa costumam registrar melhora de clima interno, queda no turnover e maior confiança dos clientes ao incluir trabalhadores mais velhos. Pequenos movimentos que indicam que há terreno fértil fora da viralização.

O mito do encontro perfeito

Esse cenário ajuda a explicar por que “Um Senhor Estagiário” (2015) volta a circular como referência sempre que se fala de intergeracionalidade. O filme apresenta um choque geracional que se resolve com uma harmonia quase instantânea. Ben Whittaker, aposentado de 70 anos, retorna ao mercado numa startup comandada por Jules Ostin, jovem CEO sobrecarregada pela própria criação.

É uma fantasia reconfortante: experiência e inovação se completam; o idoso é sempre gentil, paciente, discreto; a jovem líder, brilhante, mas emocionalmente exausta. O problema é que, no mundo real, a convivência intergeracional não depende de personagens perfeitos, e muito menos de que um grupo performe docilidade para existir.

O filme funciona como alegoria e também como alerta. A convivência entre gerações só é produtiva quando há conflito, diálogo e negociação de ritmos. O resto é propaganda de diversidade.

Convivência também é estrutura

Se a tendência intergeracional quiser sair do campo da estética e entrar no da transformação, precisa se tornar projeto – dentro e fora das empresas. Isso significa:

  • criar ambientes que acolham tempos, linguagens e ritmos diferentes;
  • abandonar a ideia de que cada geração é um bloco homogêneo;
  • reconhecer que a troca não é linear (jovens também ensinam e idosos também experimentam);
  • aceitar que inovação nasce justamente dos “ruídos” e não só da homogeneidade.

No filme, Ben percebe o esgotamento emocional de Jules antes que ela verbalize. Ele não age como pai nem funcionário exemplar, mas como alguém que vê o outro – coisa cada vez mais rara em um mundo que responde antes mesmo de escutar. Se importar com o outro deveria ser transversal à idade.

Um futuro que depende dos encontros

Por trás da viralização das duplas “improváveis”, o que buscamos são as mesmas coisas. Pertencimento, propósito, vínculos mais densos em meio ao cotidiano acelerado. A idade pode diferenciar trajetórias, entretanto não separa necessidades humanas.

Se existe uma tendência que merece nossa atenção, não é a intergeracionalidade como estética do feed. É a intergeracionalidade como projeto de mundo, capaz de reinventar ambientes de trabalho, ampliar redes de cuidado e desenhar um futuro que não exclua metade das pessoas por ter “vivido tempo demais” nem pressione a outra metade a “amadurecer rápido demais”.

Brenda Gasparetto

Estagiária de Comunicação e Marketing na ELOS. Graduanda em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).