Bate-papo destacou dificuldades na gestão de recursos, a importância do planejamento e o papel da educação financeira na autonomia das mulheres
Indianara Corrêa não começou com um plano de negócios. Começou o próprio empreendimento com a filha mais nova no colo, ainda com seis meses.
A trajetória como manicure teve início aos 17 anos, em um curso gratuito, oferecido por uma ONG ligada à Eletrosul. Foi nesse período que descobriu a gravidez do primeiro filho. Pensou em desistir, mas encontrou incentivo na professora para seguir. Pouco tempo depois, já atendia em domicílios na comunidade onde morava, no Morro do Mocotó, conciliando os atendimentos com um emprego formal em telemarketing. Levava duas bolsas para a casa das clientes: a de trabalho e a do bebê.

Com o tempo, construiu clientela e passou por alguns salões, até perceber a necessidade de transformar a atividade em negócio próprio, em busca de mais autonomia. O segundo filho foi decisivo nesse processo. Quando Lívia nasceu, a necessidade de conciliar renda e cuidado fez com que aquela habilidade se consolidasse como fonte principal de renda própria. Já tinha uma carteira de clientes no bairro em que trabalhava, mas conquistar uma nova em outro local era só um dos desafios que iria enfrentar com a mudança.
“Ninguém ensina a empreender, a gente só é ensinado a trabalhar”, resume. Com móveis comprados pela internet, montou o primeiro espaço em regime de sublocação, no Centro.
O início foi marcado por dificuldades. “Eu não tinha essa consciência de contratar uma máquina de cartão, por exemplo. Não valorizava o meu trabalho e vivia fazendo umas promoções malucas.” Nos seis primeiros meses, enfrentou instabilidade financeira e não conseguia faturar o suficiente nem para cobrir o aluguel. “Eu atendia igual uma louca, mas eu simplesmente não via o dinheiro.”
Quando trabalhar muito não significa ganhar dinheiro
A virada começou a partir de uma conversa. Uma cliente trouxe a importância da organização financeira enquanto a profissional pintava unhas e, a partir disso, Indianara passou a olhar para o próprio negócio de outra forma.
O crescimento veio aos poucos. Após dois anos na sublocação, conseguiu abrir um espaço próprio. No meio do caminho, a pandemia interrompeu o fluxo de atendimentos e impôs uma pausa brusca. Um balde de água fria que também trouxe uma oportunidade de reorganização.
O tempo que antes era dedicado ao atendimento passou a ser investido em aprendizado: cursos online, vídeos, especializações e, principalmente, noções de planejamento financeiro para quem trabalha por conta própria.
Hoje, ela entende quanto precisa faturar para cobrir os custos fixos, quantas clientes são necessárias ao longo do mês e como precificar melhor o próprio trabalho. Entre essas mudanças, destaca também uma evolução importante: “Quebrei o tabu de falar sobre dívidas, de quanto preciso ganhar… O tabu de falar sobre dinheiro mesmo.”
A história de Indianara se repete com outras mulheres que recebemos na ELOS na segunda-feira (20), em um encontro voltado à organização financeira de pequenas empreendedoras da Grande Florianópolis.
Ao todo, dez mulheres, a maioria atuando na área da beleza e formalizadas como microempreendedoras individuais (MEIs), participaram de um bate-papo sobre gestão financeira no dia a dia.
Além de uma capacitação formal, o encontro se tornou um espaço de troca. Enquanto conduzíamos a conversa, experiências circulavam pela sala. Dúvidas práticas de como separar o dinheiro pessoal do caixa do negócio se misturavam a relatos de rotina, decisões difíceis ao empreender e estratégias construídas na prática.
Em comum, um ponto aparecia com frequência: a dificuldade de organizar os próprios números. Anotar gastos, entender quanto de fato entra e sai, formar uma reserva para o futuro. O básico, que raramente cabe na rotina.
O que muda quando a organização financeira entra em cena
“A autonomia financeira das mulheres passa, apesar de tudo, pela organização”, explica a economista Laura Rataichesck (analista de compliance da Elos), que conduziu o encontro ao lado da contadora Laiz Sacheti (analista financeira da Elos). “Quando a gente fala em independência financeira, não é necessariamente sobre ter muito dinheiro, mas sobre ter segurança para viver sem que o financeiro seja um fator que limite as nossas decisões”, complementa Laura.
No cotidiano de quem empreende, especialmente em negócios pequenos e, muitas vezes, informais ou em fase inicial, essa organização costuma ceder lugar ao improviso. Recebe-se e já se gasta. Misturam-se contas. Trabalha-se muito, mas sem clareza sobre o resultado.
Esse cenário, como observamos no encontro, acaba mantendo muitas mulheres em uma rotina de insegurança.
Foi nesse ponto que a conversa ganhou contornos mais concretos. Temas como precificação, controle de custos e formação de reservas foram traduzidos para a realidade das microempreendedoras, com caminhos possíveis.
A ideia de pensar no longo prazo também apareceu como uma discussão importante. Para muitas delas, a aposentadoria ainda é um tema distante, quase abstrato. Mas, ao longo do encontro, começou a ganhar outra dimensão: a de um recurso necessário para quem, em grande parte, não conta com garantias formais de proteção social.
“Quando surge a oportunidade de se organizar, mesmo com passos simples, isso passa a mudar, mesmo que lentamente”, afirma Laura. “Entender quanto entra, quanto sai, planejar e criar pequenas reservas traz uma sensação de controle que se transforma em segurança.” Segurança que, no limite, significa poder escolher: recusar trabalhos, sair de situações desconfortáveis, reorganizar a rotina, projetar o futuro.
Entre as participantes do encontro, esse movimento já começa a aparecer. Indianara, por exemplo, hoje divide melhor o que é pessoal e o que pertence ao negócio. Está em um processo contínuo, mas com outra percepção sobre o próprio trabalho.
O encontro também contou com a participação de Silvana Pessoa, profissional da área da beleza com mais de 20 anos de experiência, que contribuiu com orientações práticas e relatos de trajetória.

A rede que se formou ali não surgiu por acaso. Muitas participantes chegaram por indicação de colaboradoras da Elos ou de outras mulheres, em um movimento espontâneo de convite. Esse movimento ajuda a explicar por que encontros como esse tendem a ultrapassar o tempo de uma tarde.
Ao abrirmos nossas portas para esse público, ampliamos também o alcance do nosso trabalho em educação financeira, aproximando esse conhecimento de quem, muitas vezes, está à margem dessas discussões. O retorno foi imediato, e a possibilidade de novas edições já está em avaliação!
Enquanto isso, para quem participou, os efeitos começam ainda em pequena escala, uma anotação, um planejamento, uma decisão diferente no fim do mês, mas com potencial de impacto mais amplo.
“Para nós, essa segurança e autonomia são sinônimos de liberdade de escolha”, resume Laura. “De agir sem desespero e, principalmente, de ter condições para decidir o que faz sentido para a própria vida.”
No caso de Indianara, essa escolha começou anos atrás, quando decidiu trabalhar por conta própria. Agora, passa por outro tipo de decisão: entender, com mais clareza, o valor do que construiu e o que fazer com isso daqui para frente.




